O Primeiro Registro do Cabelo
Quando falamos em “primeiro registro do cabelo”, é preciso fazer uma distinção
histórica importante. Há representações muito antigas da figura humana que podem
sugerir tranças ou coberturas trançadas, como a Vênus de Willendorf, datada de cerca
de 28.000 a 25.000 a.C. Mas, nesse caso, a leitura não é totalmente fechada: alguns
especialistas interpretam o detalhe como trança, enquanto outros o veem como um
tipo de capuz ou cobertura. Por isso, esse marco é valioso como possível registro
visual, mas não como a prova mais sólida para abrir um artigo histórico.
Se o objetivo é encontrar o primeiro registro realmente firme e direto sobre cabelo,
o melhor ponto de partida está em um objeto muito menor e mais cotidiano:
um pente de marfim encontrado em Lachish, antiga cidade de Canaã.
Esse pente recebeu uma inscrição em escrita cananeia antiga, hoje datada de cerca
de 1700 a.C., e trouxe uma frase simples, concreta e extraordinária para a história
do cuidado capilar.
A inscrição, segundo o estudo acadêmico publicado no Jerusalem Journal of
Archaeology, pode ser traduzida como:
“Que esta presa arranque os piolhos do cabelo e da barba”.
A frase foi gravada em letras minúsculas, de cerca de 1 a 3 milímetros,
e ocupa um pente feito de marfim de elefante com dois lados:
um para desfazer nós e outro com dentes finos para remover piolhos e lêndeas.
Esse detalhe muda muita coisa na forma como entendemos a história do cabelo.
O primeiro grande registro escrito não fala de luxo, moda ou vaidade.
Ele fala de higiene, de rotina e de um problema humano universal:
o combate aos piolhos.
Isso torna o achado ainda mais poderoso, porque mostra que o cabelo já era tratado
não apenas como adorno, mas como parte concreta da vida diária, exigindo cuidado,
atenção e instrumentos específicos.
O valor histórico do pente de Lachish vai além da frase curiosa.
Os pesquisadores afirmam que ele traz, pela primeira vez, uma sentença completa e
confiável em dialeto cananeu ligada ao cotidiano.
Também é a primeira descoberta, na região, de uma inscrição que explica a função
do próprio objeto em que foi gravada.
Em outras palavras, não se trata só de um pente antigo:
trata-se de uma peça que aproxima linguagem, corpo, higiene e cultura material
em um único vestígio arqueológico.
Esse registro escrito ajuda a desmontar uma ideia moderna bastante comum:
a de que a história do cabelo começou como história da beleza.
Na verdade, ela começou também como história da sobrevivência diária,
da limpeza e da saúde.
Antes de virar símbolo de moda, status ou identidade estética,
o cabelo já exigia manejo, ferramentas e conhecimento prático.
O pente de Lachish mostra exatamente isso:
o fio de cabelo já era importante o bastante para merecer tecnologia,
uso repetido e até uma mensagem gravada.
Isso não significa que o cabelo não tivesse valor simbólico em épocas anteriores.
No Egito Antigo, por exemplo, há evidências muito antigas de extensões e perucas,
e estudos arqueológicos indicam exemplos de cabelos postiços desde cerca de
3400 a.C.
Museus como o British Museum e o Metropolitan Museum preservam perucas antigas
feitas de cabelo humano, tratadas com cera de abelha, resina e gordura animal,
o que revela um nível sofisticado de cuidado e elaboração capilar.

Mas o que faz o pente de Lachish ser especial é a clareza.
Enquanto imagens antigas podem gerar debate interpretativo,
esse pequeno objeto fala de modo direto.
Ele registra o cabelo em uso real, em contexto doméstico e humano.
Não é uma hipótese sobre aparência.
É uma frase objetiva sobre a função do pente e sobre a preocupação concreta com
cabelo e barba.
Por isso, ele é hoje o melhor candidato ao título de primeiro registro escrito
ligado diretamente ao cabelo.
Há também um lado simbólico bonito nesse achado.
A história do cabelo, tantas vezes associada ao espelho e à estética,
começa, nesse caso, com um gesto simples:
passar um pente pelos fios para tirar incômodos do corpo.
Isso aproxima o passado do presente.
Mesmo milhares de anos depois, o cabelo continua sendo cuidado,
transformado e valorizado porque carrega identidade, bem-estar e expressão pessoal.
O primeiro registro escrito sobre ele já mostrava isso, ainda que de forma prática
e silenciosa, em um pequeno pente de marfim enterrado no tempo.